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Um Dia De Muito Júbilo e Tristeza.Mas... Precisava Ter Tristeza?

por Marcos L Susskind


Nada é mais triste do que a morte de uma ilusão - Arthur Koestler




O final da tarde de hoje trouxe ao Oriente Médio um imenso sopro de júbilo por uma nova era que se abre.

O país mais rico da região e o país tecnologicamente mais avançado resolveram suas diferenças e anunciaram um esperado, almejado e necessário acordo de paz.

Israel e Emirados Árabes Unidos resolveram fazer a paz em troca de ... paz.

Não foi troca de paz por dinheiro, nem por terras, nem sequer pela humilhação de um dos lados.

Ambos se comprometeram a trocar embaixadores, cooperar nas áreas econômica, médica, tecnológica, militar, ensino e outras mais.

Já anunciaram até união de esforços no desenvolvimento de uma possível vacina para o Covid19, o fornecimento de tecnologia Israelense para dessalinização de água do mar e o aporte de capitais dos Emirados na economia Israelense.


É o terceiro país Árabe a romper com a famigerada decisão adotada em Kartum,  imposta a todos os 22 países Árabes, conhecida como  "Três Nãos": "Não à paz com Israel, Não ao reconhecimento de Israel, Não às negociações com Israel".

O Egito assinou a paz com Israel em 1979, a Jordânia o fez em 1994 e agora, 26 anos mais tarde, Os Emirados Árabes também o fazem.

Cabe ressaltar que Egito e Jordânia nunca mais choraram a morte de um filho em batalha com Israel e os ganhos foram imensos - a Jordânia mais que duplicou a eficiência agrícola com treinamento dado por Israel e o Egito pode aproveitar imensamente o comércio de gás com Israel. 


Os Emirados Árabes Unidos (EAU) é formado por sete emirados: Abu Dhabi, Adjmán, Dubai, Fuyaira, Ras al-Jaima, Sarja e Umm al-Qaiwayn.

Não há dúvida que a capacidade econômica dos EAU aliada à capacidade tecnológica e inventiva de Israel podem agregar um imenso avanço ao mundo em geral e à região em particular.

Voos regulares entre Abu Dhabi e Israel devem começar rapidamente, permitindo a milhares de muçulmanos orar em El Aqsa, no coração de Jerusalém e constatarem a plena liberdade religiosa e respeito que Israel garante à religião Islâmica - e com isso desmentir a corrente de mentiras difundidas nas nações ainda inimigas.

Permitirá também aos Israelenses conhecer as maravilhas da engenharia civil dos EAU, entre as mais avançadas do mundo.

E ainda poderá ser a porta de entrada de outras nações Árabes num futuro pacto de paz.

Diz-se que o Sudão já dá mostras de querer seguir a mesma rota.


O júbilo com esta nova situação é imenso e eu, que vivo em Israel, constatei pelas ruas um nível de alegria e bom humor que há muito não via! Mas...


Mas... também há um certo desapontamento e tristeza.

Não sei porque o Júbilo tem de ser quebrado e a tristeza precisa aparecer neste momento.

O motivo é a reação intempestiva, furiosa e violenta da Autoridade Palestina.

Há alguns anos eu disse uma frase que vou repetir aqui: As muralhas que alguns constroem para afastar o inimigo são as mesmas que não permitem que o amigo se aproxime.

Pois a muralha do ódio existente no lado Palestino não demorou a aparecer.

Palestinos de todo o espectro político condenaram veementemente o acordo considerando-o uma traição aos Palestinos.

Usaram uma variedade de ofensas aos EAU e seus líderes, tais como "Emirado Sionista Unido", "cães" e "traidores". 


Autoridades Palestinas disseram: "Israel anexou os Emirados Árabes Unidos em vez de anexar a Cisjordânia".

A Autoridade Palestina anunciou imediatamente que decidiu chamar de volta seu embaixador nos EAU em protesto contra o acordo de normalização com Israel e que houve "traição da causa Árabe e Palestina" e concomitantemente convocou uma reunião urgente da Liga Árabe para buscar sua rejeição ao acordo.

Aqui se vê uma tentativa clara de expandir a causa Palestina como uma causa Árabe, sem levar em consideração as motivações dos países Árabes soberanos.


Autoridades do Hamas na Faixa de Gaza, inimigos da AP, se uniram a esta em denunciar o acordo que "encorajaria Israel a continuar sua agressão contra os palestinos", disse o porta-voz do Hamas, Hazem Qassem.

Também a Jihad Islâmica, outra organização terrorista, afirmou que a normalização equivale a "rendição".


O acordo Israel-EAU, na concepção dos Comitês de Resistência Popular, outro grupo terrorista em Gaza, "revela o tamanho da conspiração contra nosso povo e nossa causa".


Mohammad Dahlan, arquirrival do presidente da AP, Mahmoud Abbas, vive exilado nos EAU e provavelmente verá sua popularidade subir na rua Palestina - mais um motivo de preocupação para Abbas, conhecido também pelo codinome Abu Mazen, que convocou uma reunião de emergência da liderança Palestina para discutir as repercussões do acordo.

Durval Arrebola, um antigo colega de trabalho, disse uma frase que me marcou: "O veneno destrói o cálice que o contém".

Provavelmente o cálice é a atual liderança Palestina e o veneno, suas atitudes...


Infelizmente, mais uma vez, a liderança Palestina vê a possibilidade de paz como um entrave para sua existência.

Acostumados ao confronto, ao terrorismo, ao poder quase ditatorial, são incapazes de dar uma chance à paz.

Foi assim com o Plano Alon em 1967, nas negociações do Plano Rogers em 1970, Conferência de Genebra em 1973, Acordos de Camp David em 1978, Madrid 1991, Cúpula de Camp David em 2000, o "Mapa do Caminho" de 2002, a cúpula Olmert/Abbas de 2007, as conversações de Obama em 2010, as de Kerry em 2014 e até a absoluta negativa em sequer tomar conhecimento do Plano Trump de Janeiro de 2020. 


O falecido chanceler Israelense Abba Eban costumava dizer nos anos 1970 que "os árabes não perdem uma oportunidade de perder qualquer oportunidade".

Ele ironizava a recusa dos Palestinos a aceitar a existência de Israel e chegar a um acordo com Israel em condições que seriam incomparavelmente melhores para eles do que as do confronto.


Infelizmente, passados 50 anos, a frase segue absolutamente atual...


E assim, Júbilo e Tristeza, mais uma vez, caminham de mãos dadas no Oriente Médio.

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