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Sobre Educar x Banalizar

por Karina Hotimsky Iguelka





Temos assistido a um uso frequente, complicado e banalizado da Shoa no Brasil neste momento.

Já discutimos à exaustão sobre o nazismo ser um movimento de esquerda ou de direita, com a participação especial da embaixada da Alemanha afirmando claramente que

o nazismo é um movimento de extrema direita. Da parte do governo federal, vimos uma série de episódios assustadores.


Alguns entenderam que no Brasil de 2020, a estética nazista poderia ser revisitada, copiada e plagiada, no mundo pós-Shoa.

Assistimos ao secretário de comunicação Roberto Alvim citando Goebbels ao som

de Wagner.

Ouvimos comparações descabidas entre o isolamento devido a pandemia de covid-19 e os campos de concentração.

Lemos com surpresa, a frase da SECOM sobre como o trabalho libertará a nação num uso que levou à associação espontânea, direta e inevitável, com a frase "Arbeit Macht Frei" que muitos conhecemos da entrada de Auschwitz.

E mais recentemente, ouvimos a comparação de Abraham Weintraub entre uma

investigação feita pela Policia Federal sobre fake news e a famigerada Noite dos Cristais que em 1938, inaugurou a perseguição do governo nazista aos judeus.


Banalizar é tornar comum, normalizar, trivializar.


Percebemos a banalização no excesso de falas sobre a Shoa que buscam fazer qualquer uso que se deseje do tema sem nenhum tipo de critério, sem respeito

ao conteúdo do que se fala, de modo reducionista e simplificador.

A premissa parece ser a de que a analogia com a Shoa garante a força do argumento praticamente como um recurso retórico.

Esse movimento tenta camuflar uma intenção clara de fazer uso da história da

humanidade para fins pessoais e políticos.

Banaliza-se a memória coletiva, as histórias de luta e resistência, de resiliência e os testemunhos dos sobreviventes.

Temos também aqueles que não apenas banalizam a Shoa, mas se inspiram nos regimes nazista e fascista.

Nesse caso muito alarmante e que constitui um risco atual, precisamos nos manifestar como vem sendo feito por algumas instituições representativas na comunidade

através de notas de repúdio e através de ações de todo o tipo, sobre a ameaça da instauração de um pensamento e um estado totalitário.


A Shoa pertence à história dos judeus e da humanidade. Refere-se ao projeto de extermínio de um povo num processo sistemático e organizado e criou uma indústria de morte que levou a vida - de 6 milhões de judeus sendo 1,5 milhões de crianças

além de milhões de vítimas de outras minorias como homossexuais, negros, prisioneiros políticos, ciganos e testemunhas de Jeová.


Também, se encaixa dentro do conceito de genocídio criado em 1944 que coloca a Shoa

como um genocídio comparável a outros tantos que aconteceram antes e depois.

A categoria de genocídio não exclui o fato de que cada genocídio tem a sua

particularidade porque tem uma história única.


Precisamos ter claro que podemos ensinar, estudar, comparar e refletir sobre a Shoa, mas não de qualquer forma, não de forma banalizada.


A História da Shoa é uma ferramenta de educação que tem muito a nos ensinar.

Educar sobre a Shoa implica em honrar a memória das vítimas sempre e honrar mais ainda aprendendo com suas histórias de vida e com seus exemplos. Ao escolher educar sobre esse tema estamos optando por trabalhar com um legado de valores éticos,

morais e humanos e assumindo o compromisso de não permitir que a barbárie se repita.


Ao reconhecermos o risco ou a ameaça da emergência de um regime totalitário, da intolerância, da perseguição as minorias, ou qualquer violação dos direitos humanos, nós que temos essa memória como legado precisamos falar e alertar.

Sabemos da importância de travar uma luta cotidiana contra qualquer tipo de discriminação, preconceito, violência contra qualquer pessoa, povo, etnia ou nação.

Não falar da Shoa nesse momento seria a banalização.

Tratar a Shoa como um fato histórico pertencente ao passado que não conversa com o nosso presente é deixar esse momento histórico, tão extremo e de consequências tão nefastas para o povo judeu e para a humanidade, na prateleira da história de forma

inutilizada.

Daí perdemos a oportunidade de usar o passado como instrumento de uma luta no presente. Essa luta se dá através da educação.

Educar para Auschwitz nunca mais, para que a barbárie não se repita, seja um

paradigma ético nas nossas vidas.

Conforme escreveu Adorno em Educação Pós Auschwitz,

“A exigência que Auschwitz não se repita é a primeira de todas para a educação”.


Primo Levi, autor reconhecido da literatura de testemunho, recusou-se a isolar a experiencia dos campos do resto da humanidade. Manteve uma ponte entre Auschwitz e o mundo durante seu tempo de prisioneiro e depois como autor. Sabia bem que se

narrasse as atrocidades do campo em toda a sua crueza geraria tal aversão em seu leitor que a possibilidade de dar seu testemunho, de ser ouvido e compreendido, seria

prejudicada. Tinha claro que a realidade dos campos de concentração precisaria ser usada pelas futuras gerações e assim fez o enorme trabalho de traduzir experiências

inomináveis. Levi buscou comparações claras e encontrou formas de falar com aqueles que como nós vivemos em nossas cálidas casas, com comida quente

e rostos amigos, conforme suas palavras no conhecido poema É Isto um Homem?.


E sua pergunta sobre o que é um homem e sobre o que é um não homem contém

muito do que motiva a educar sobre a Shoa.

“Pense bem se isto é um homem”, ele nos diz no poema que introduz seu livro com o mesmo título, escrito dois anos após ter saído de Auschwitz.

“Pense bem se isto é uma mulher” e “Pensem que isto aconteceu”.

Pensar com Primo Levi é urgente.

Nos mantermos pensantes

é uma condição fundamental da nossa humanidade.

E depois Levi coloca “Eu mando estas palavras, gravem nas em seus corações”.

De que forma essas experiências ficam gravadas no coração e no psiquismo de cada

geração. Marcas gravadas na carne, no coração, na história individual e universal. É possível reconhecer ou imaginar que muitas marcas se referem às experiências

traumáticas vividas nos campos. Aos prisioneiros foi retirada a sua dignidade, sua identidade e até as palavras deixaram de ter significado na Babel que se

instalou nos campos.

Com a fome rompeu-se também a solidariedade humana e a moral foi degradada.

Os problemas imediatos relativos ao corpo reduzido a puro ser biológico eram um obstáculo ao pensamento.

“O campo é a fome, nós mesmos somos a fome, uma fome viva” escreveu o autor.


A Shoa é a prova de como é possível aniquilar um homem, retirar tudo dele, até

o seu nome, identificá-lo por um número, reduzi-lo a puro corpo possuído por necessidades físicas e sem a capacidade de pensar.

E depois matá-lo como se fosse um não homem.


Sabemos que Auschwitz, que hoje se tornou símbolo da barbárie, foi construído por homens para matar homens pelo fato de uns serem diferentes de outros.


Esse processo só foi possível porque muitas pessoas se calaram.


Nunca foi tão importante falar de nazismo e de Shoa.


A educação sobre a Shoa é necessária e urgente como já avisaram vários dos sobreviventes.

Hoje no Brasil, estamos nos confrontando com muitas ameaças que correspondem a desumanização e aos riscos do regime totalitário que conhecemos do passado, que hoje

aparecem com outra roupagem. A questão da pandemia de Covid-19 escancarou problemas já existentes em nossa sociedade, mas que se agravam ameaçando muitas

vidas. Vidas que se tornam números que podem ser apagados facilmente em manobras que tentam negar a realidade. A questão da morte é normalizada e o valor da vida vem sendo repetidamente deslegitimado. Não temos como ignorar as diferenças sociais que permitem que alguns estejam seguros nesse momento enquanto outros estejam totalmente desamparados e ameaçados pelo vírus, pela fome ou pela falta de políticas públicas de saúde ou economia.

A inabilidade dos governantes é assustadora e criminosa.

Nossa educação já tão sofrida tem hoje que lidar com a questão de aulas virtuais num

país onde um terço da população não tem acesso a telefones ou computadores e muitas vezes tem fome.


Perdemos vidas negras a todo momento como se tivessem menor valor.

Não podemos mais tolerar que algumas pessoas sejam tratadas como menos humanas

que outras por nenhum motivo.

Nós conhecemos o processo da desumanização sofrido pelos judeus na Shoa.


Ao educar sobre a Shoa precisamos estar atentos ao risco de deixar a sua memória banalizada, atrelada ao passado e relegada apenas a dias específicos, cerimônias,

rezas, monumentos ou o que é pior, ao silêncio.

Atentos para não perpetuar o traumático da Shoa e manter o passado vivo no presente sem poder olhar em direção ao futuro.

Precisamos educar para que tenhamos consciência do mal em nós e no mundo. Transmitir o passado de forma a oferecer novos significados para compreender o presente que urge por ser compreendido.


Assim lutamos para retomar no presente, as esperanças

do passado para a construção de uma sociedade melhor.


Karina Hotimsky Iguelka

Psicanalista e coordenadora do Projeto Marcha da Vida

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