Buscar
  • Kadimah

Quem é a brasileira que salvou judeus e passa a estampar selo dos Correios

Como chefe da Seção de Passaportes do consulado em Hamburgo (Alemanha), Aracy Guimarães Rosa conseguiu liberar vistos de judeus para o Brasil durante a Segunda Guerra. A diplomata ficou conhecida como "o anjo de Hamburgo" e passa a ser homenageada em selo dos Correios.


Por: Edison Veiga

Aracy Moebius de Carvalho Guimarães Rosa em seu apartamento em Copacabana, em 1992 Imagem: Luciana Whitaker/Folhapress

Tempos de perseguição fazem heróis, muitos deles anônimos. Assim como o industrial alemão Oskar Schindler (1908-1974), cuja história ficou famosa devido ao filme de Steven Spielberg A Lista de Shindler, o Brasil também teve sua heroína dos tempos do Holocausto. Trata-se de Aracy Moebius de Carvalho Guimarães Rosa (1908-2011), que, como chefe da Seção de Passaportes do consulado brasileiro em Hamburgo, na Alemanha, conseguiu liberar vistos para judeus fugirem da perseguição nazista.


No Brasil daquele período, estava em vigor a Circular Secreta 1.127, uma lei que restringia a entrada de judeus no país. Quando despachava com o cônsul geral, Aracy simplesmente ignorava essa legislação, colocando os pedidos de judeus em meio à papelada para que fossem aprovados automaticamente pelo diplomata, sem questioná-la.


Até agora, segundo pesquisas do Arquivo Virtual Arqshoah: Holocausto e Antissemitismo, do Laboratório de Estudos sobre Etnicidade, Racismo e Discriminação (Leer) da Universidade de São Paulo (USP), sabe-se que Aracy salvou 17 famílias do nazismo. Mas a quantidade pode ser bem maior. De acordo com a historiadora Maria Luiza Tucci Carneiro, coordenadora do Leer, o número total de judeus salvos pode vir a ser revelado em novos depoimentos de sobreviventes e familiares, algo que ela coleta sistematicamente em seu trabalho de pesquisa.


"Os testemunhos registrados pela nossa equipe indicam que corria a notícia entre os judeus que fugiam das perseguições nazistas de que Aracy facilitava a liberação dos vistos para o Brasil. Uma das táticas adotadas para camuflar suas ações era a de omitir o carimbo da letra J, em vermelho, nos passaportes, marca imposta pelo governo alemão como forma de identificação do judeu, classificado como 'raça inferior'", afirma a pesquisadora.


"Ao misturar tal documentação entre os papéis a serem assinados pelo cônsul, Aracy procurava não deixar vestígios que os comprometessem", ela diz. Era um risco, mas não foi o único.


"Aracy, em diferentes momentos, assumiu tarefas perigosas, escondendo e transportando judeus à noite em seu carro, como narrado por alguns sobreviventes", relata a pesquisadora.


Diretora do Museu Judaico de São Paulo, a historiadora Roberta Alexandr Sundfeld concorda que devem ser mais os beneficiados pela brasileira. "Como ela não deixou traços de suas atividades, só ficamos sabendo por depoimentos muitos anos depois, é bem possível que haja outros benfeitores."


Uma mulher à frente de seu tempo


Nascida em Rio Negro, no Paraná, Aracy tinha pai português e mãe alemã. Seu primeiro casamento, em 1930, foi com um alemão. Durou cinco anos. Poliglota - dominava português, inglês, francês e alemão -, conseguiu o emprego no consulado brasileiro de Hamburgo.


"Aracy era uma mulher à frente do seu tempo. Separada, com um filho para cuidar, mudou-se para a Alemanha em 1934 e foi trabalhar no setor de vistos em uma época em que poucas mulheres trabalhavam. Desafiou as ordens enviadas pelo governo brasileiro e concedeu vistos colocando sua própria carreira em risco. Muitos anos se passaram, ela voltou ao Brasil, e quando indagada sobre o motivo de suas ações, respondeu simplesmente: 'Porque era justo'", comenta Sundfeld.


Foi em Hamburgo que Aracy conheceu o escritor João Guimarães Rosa (1908-1967), que era cônsul adjunto. Apaixonaram-se e casaram-se. Eles ficaram na Alemanha até 1942.


"Anotações deixadas por Guimarães Rosa em seu diário escrito durante o período mostram que a questão dos judeus perseguidos pelos nazistas fazia parte das preocupações do casal", aponta Tucci Carneiro. Em 1956, quando publicou sua obra-prima Grande Sertão: Veredas, Guimarães Rosa dedicou-o a ela: "A Aracy, minha mulher, Ara, pertence este livro".


"Foi uma mulher bem corajosa. Filha de mãe alemã, ousou peitar o governo Getúlio Vargas viabilizando vistos para refugiados judeus do nazismo", comenta o historiador Reuven Faingold, PhD em História do Povo Judeu pela Universidade Hebraica de Jerusalém e diretor educacional do Memorial da Imigração Judaica e do Holocausto em São Paulo.


"Sabemos que são poucos os brasileiros que afrontaram com tanta determinação e coragem a política acentuadamente antissemita disseminada pelo governo Vargas".


"Anjo de Hamburgo"


Apelidada de O Anjo de Hamburgo, Aracy foi reconhecida em vida pelo Yad Vashem, o memorial do Holocausto em Israel. Em 8 de julho de 1982, teve seu nome incluído no Jardim dos Justos, honraria que coube a apenas mais um brasileiro, o diplomata Luiz Martins de Souza Dantas (1876-1954), que atuava na França durante a Segunda Guerra. Em 1993, ambos também foram lembrados pelo Memorial do Holocausto em Washington.


Hoje, Aracy ganha mais uma homenagem: ela passa a estampar um selo dos Correios. É a sexta personalidade da série Mulheres Brasileiras que Fizeram História, que já homenageou, entre outras, a farmacêutica e ativista Maria da Penha e a escritora Carolina Maria de Jesus (1914-1977).


"É uma homenagem absolutamente merecida. Aqueles que salvam vidas de inocentes merecem ser reverenciados e divulgados", afirma o rabino David Weitman. "A história não pode esquecê-los".

Tucci Carneiro acredita que a iniciativa dos Correios ajudará a tornar a história dela mais conhecida. "Coloca em circulação informações históricas até então restritas a um público menor", avalia.


"Serve também de estímulo ao ato de narrar ser assumido pelos sobreviventes salvos por Aracy, ou seus familiares, que até então não deram o seu testemunho. O selo é também um ato pedagógico que ensina, através da imagem de Aracy, sobre a importância dos atos de solidariedade em tempos sombrios.".


Cerimônia de Obliteração do selo


O Memorial da Imigração Judaica e do Holocausto sediou a cerimônia de Obliteração do selo em homenagem à Aracy de Carvalho Guimarães Rosa.

O evento foi uma parceria entre os Correios (@correiosoficial),o Consulado de Israel em S. Paulo (@israelemsaopaulo) e o Memorial do Holocausto. Foi um evento emocionante, que contou com a presença do filho de Aracy, Dr. Eduardo Tess, sua esposa Beatriz, netos e bisnetos. Representando os sobreviventes tivemos a honra de contar com o Sr. Andor Stern e a Sra. Margot Bina Rotstein, e a Sra. Maria Julia Hochfeld Backer, filha de Hans Joachim Hochfeld, salvo por Aracy. Estiveram ainda presentes na cerimônia, o Rabino David Weitman e o Cônsul Geral de Israel em S. Paulo, Sr. Alon Lavi. Aracy foi uma mulher destaque, que deve ser sempre lembrada por ter tido a coragem de se arriscar por um objetivo e mais nobre, salvar vidas humanas! “Quem salva uma vida é como se salvasse toda a Humanidade”.


Veja abaixo as fotos da cerimônia:




___

Fonte: DW.com e Memorial da Imigração Judaica


51 visualizações0 comentário
banner-2021.png

Seja um Patrono Kadimah

Apoie a Revista Kadimah e fortaleça mais ainda a publicação