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Os tortuosos caminhos da memória

Obra de Susan Suleiman sobre a 2ª Guerra discute relação entre passado e presente

por Jacques Fux


Depois de um grande trauma geracional, as memórias e as reminiscências do evento permanecem como feridas e cicatrizes, e se transformam em narrativas lacunares preenchidas com ficção.

Mas, quem poderá se lembrar e a quem pertencerá a narrativa “oficial”?

A memória, percebemos com os estudos, é encenada, falseada e subvertida para fins públicos e políticos.

Entendemos que a cinematografia, a literatura, as ficções autobiográficas e os documentários pessoais contribuem para entrecruzar a memória coletiva e os dramas pessoais.

Mas, para podermos realmente compreender um evento, é necessário que o tempo passe e que enxerguemos o passado à luz do presente e das mudanças.


Assim, se entendermos alguns aspectos do mundo pós Segunda Guerra Mundial, poderemos inferir/vislumbrar algo para quando superarmos – oxalá superemos – o terrível evento atual.

Por isso, esmiuçar um passado ainda vivo e tão presente é uma tentativa importante de atentarmos para a crise mundial que se instaura - e o livro Crises de memória e a Segunda Guerra Mundial é fundamental neste momento.


Susan Suleiman, professora emérita da Universidade de Harvard, examina, por meio de livros, filmes, documentos históricos e da arte, as crises de memória relacionada à Segunda Guerra Mundial.

Para a pesquisadora, tal memória, embora específica de uma “geração” e de um “evento”, transcende as fronteiras nacionais e temporais, o que se deve não apenas à natureza global de uma guerra, mas também à presença, cada vez mais abrangente, das catástrofes e de seus usos para fins políticos e comerciais.


Embora o Holocausto seja um evento único em relação a tudo que se conhece – no caso, a industrialização do assassinato em massa –, ele é parte da Segunda Guerra, e seus efeitos ainda permanecem firmemente alojados na consciência coletiva. Suleiman, em seu belo estudo-ensaio, nos apresenta alguns momentos surpreendentes e subversivos do pós-guerra, como:

1) a negação da memória nazista da França e de seu pacto velado com a Alemanha de Hitler;

2) os falsos “testemunhos”, como é o caso do livro Fragmentos: Memórias de uma infância de 1939-1948, do “criminoso memorialístico” Benjamin Wilkomirski; e também: 3) o Caso Aubrac, que, a princípio, era a história de um grande herói nacional e, posteriormente, foi revelado como um terrível vilão (ainda resta dúvidas).


Será que após este grande evento do século 21, no qual estamos todos inseridos, narrativas adulteradas e modificadas serão criadas para fins políticos, como foi o caso desses exemplos citados por Suleiman?


O fato é de que a história aconteceu no passado, e a escrita dessa história é uma tentativa ilusória e limitada de registrar e interpretar algo que “foi” no presente.

Assim, a memória permanece no que resta – restos de memórias, documentos, fotos, mortos –, tanto para um indivíduo, como para um grupo ou sociedade.


Suleiman, em seu livro, faz referência à pesquisadora e escritora Susan Sontag, para relatar os problemas da memória coletiva:

“Em termos rigorosos, não existe o que se chama de memória coletiva”.

Em seguida, explica: “Toda a memória é individual, irreproduzível – morre com a pessoa. O que se chama de memória coletiva não é uma rememoração, mas algo estipulado: isto é importante, e esta é a história de como aconteceu, com as fotos que aprisionam a história em nossa mente”.


Assim, segundo as autoras, ninguém pode ter e sentir as mesmas memórias, porém elas são, de alguma forma, comunicáveis e transmitidas como registros.

Para Maurice Halbwachs, precursor da memória coletiva, o primeiro nível de transmissão é dentro da família onde as crianças herdam as lembranças de outras pessoas, e da sociedade em que estão inseridas, até poder escrever/rememorar/reinventar o seu “próprio” passado.

Suleiman, prova esse argumento de Halbwachs de forma indiscutível, nos belíssimos capítulos: “6) Revisão: trauma histórico e testemunho literário: os livros de memórias sobre Buchenwald de Jorge Semprun” e “8) A borda da memória: a escrita experimental e a geração 1.5 – Perec/Federman”.


Para Suleiman, “[o] que está em discussão numa crise de memória é a autor representação: a forma como nos vemos e nos representamos para os outros é indissociável das histórias que contamos sobre o nosso passado”.

É necessário, portanto, ir além e investigar as escolhas que implicam a reescrita de das histórias.


Suleiman reconhece a importância do testemunho nesta tentativa de reconstrução, mas, ao analisar, entre outros, o governo de Vichy e a Resistência francesa, propõe uma reflexão sobre o caráter subjetivo e parcial de certos relatos.

É fato que após eventos catastróficos, o esquecimento passa a ser inevitável, porém é importante recordar, repetir e elaborar para tentar compreender.

Assim, diante da violência presente no cotidiano de inúmeros povos ao longo da história, é importante lidar com o incessante e perene jogo da memória, da recriação e do esquecimento.

É necessário estudar os discursos da contemporaneidade e também do passado, especialmente os literários, artísticos e filosóficos, em busca de um processo de ressignificação dos traumas e das lembranças sempre difusas.

Reminiscências que, muitas vezes, retornam “à revelia e se recusam ao esquecimento”. 

Depois de um grande trauma geracional, as memórias e as reminiscências do evento permanecem como feridas e cicatrizes, e se transformam em narrativas lacunares preenchidas com ficção. Mas, quem poderá se lembrar e a quem pertencerá a narrativa “oficial”? A memória, percebemos com os estudos, é encenada, falseada e subvertida para fins públicos e políticos. Entendemos que a cinematografia, a literatura, as ficções autobiográficas e os documentários pessoais contribuem para entrecruzar a memória coletiva e os dramas pessoais. Mas, para podermos realmente compreender um evento, é necessário que o tempo passe e que enxerguemos o passado à luz do presente e das mudanças. Assim, se entendermos alguns aspectos do mundo pós Segunda Guerra Mundial, poderemos inferir/vislumbrar algo para quando superarmos – oxalá superemos – o terrível evento atual. Por isso, esmiuçar um passado ainda vivo e tão presente é uma tentativa importante de atentarmos para a crise mundial que se instaura - e o livro Crises de memória e a Segunda Guerra Mundial é fundamental neste momento. Susan Suleiman, professora emérita da Universidade de Harvard, examina, por meio de livros, filmes, documentos históricos e da arte, as crises de memória relacionada à Segunda Guerra Mundial. Para a pesquisadora, tal memória, embora específica de uma “geração” e de um “evento”, transcende as fronteiras nacionais e temporais, o que se deve não apenas à natureza global de uma guerra, mas também à presença, cada vez mais abrangente, das catástrofes e de seus usos para fins políticos e comerciais. Embora o Holocausto seja um evento único em relação a tudo que se conhece – no caso, a industrialização do assassinato em massa –, ele é parte da Segunda Guerra, e seus efeitos ainda permanecem firmemente alojados na consciência coletiva. Suleiman, em seu belo estudo-ensaio, nos apresenta alguns momentos surpreendentes e subversivos do pós-guerra, como: 1) a negação da memória nazista da França e de seu pacto velado com a Alemanha de Hitler; 2) os falsos “testemunhos”, como é o caso do livro Fragmentos: Memórias de uma infância de 1939-1948, do “criminoso memorialístico” Benjamin Wilkomirski; e também: 3) o Caso Aubrac, que, a princípio, era a história de um grande herói nacional e, posteriormente, foi revelado como um terrível vilão (ainda resta dúvidas). Será que após este grande evento do século 21, no qual estamos todos inseridos, narrativas adulteradas e modificadas serão criadas para fins políticos, como foi o caso desses exemplos citados por Suleiman? O fato é de que a história aconteceu no passado, e a escrita dessa história é uma tentativa ilusória e limitada de registrar e interpretar algo que “foi” no presente. Assim, a memória permanece no que resta – restos de memórias, documentos, fotos, mortos –, tanto para um indivíduo, como para um grupo ou sociedade. Suleiman, em seu livro, faz referência à pesquisadora e escritora Susan Sontag, para relatar os problemas da memória coletiva: “Em termos rigorosos, não existe o que se chama de memória coletiva”. Em seguida, explica: “Toda a memória é individual, irreproduzível – morre com a pessoa. O que se chama de memória coletiva não é uma rememoração, mas algo estipulado: isto é importante, e esta é a história de como aconteceu, com as fotos que aprisionam a história em nossa mente”. Assim, segundo as autoras, ninguém pode ter e sentir as mesmas memórias, porém elas são, de alguma forma, comunicáveis e transmitidas como registros.

Para Maurice Halbwachs, precursor da memória coletiva, o primeiro nível de transmissão é dentro da família onde as crianças herdam as lembranças de outras pessoas, e da sociedade em que estão inseridas, até poder escrever/rememorar/reinventar o seu “próprio” passado. Suleiman, prova esse argumento de Halbwachs de forma indiscutível, nos belíssimos capítulos: “6) Revisão: trauma histórico e testemunho literário: os livros de memórias sobre Buchenwald de Jorge Semprun” e “8) A borda da memória: a escrita experimental e a geração 1.5 – Perec/Federman”. Para Suleiman, “[o] que está em discussão numa crise de memória é a autorrepresentação: a forma como nos vemos e nos representamos para os outros é indissociável das histórias que contamos sobre o nosso passado”. É necessário, portanto, ir além e investigar as escolhas que implicam a reescrita de das histórias. Suleiman reconhece a importância do testemunho nesta tentativa de reconstrução, mas, ao analisar, entre outros, o governo de Vichy e a Resistência francesa, propõe uma reflexão sobre o caráter subjetivo e parcial de certos relatos. É fato que após eventos catastróficos, o esquecimento passa a ser inevitável, porém é importante recordar, repetir e elaborar para tentar compreender. Assim, diante da violência presente no cotidiano de inúmeros povos ao longo da história, é importante lidar com o incessante e perene jogo da memória, da recriação e do esquecimento. É necessário estudar os discursos da contemporaneidade e também do passado, especialmente os literários, artísticos e filosóficos, em busca de um processo de ressignificação dos traumas e das lembranças sempre difusas. Reminiscências que, muitas vezes, retornam “à revelia e se recusam ao esquecimento”.  CRISES DE MEMÓRIA E A SEGUNDA GUERRA MUNDIAL De Susan Suleiman Editora UFMG 320 páginas R$ 69 *Jacques Fux é professor da Escola de Engenharia de Minas Gerais (EMGE), matemático e escritor, autor de 'Meshugá: um romance sobre a loucura' (José Olympio, 2016), 'Nobel' (José Olympio, 2018), entre outros.

Fonte - site DOM total


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