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Modernidade: Individualismo e Covid


por Daniel Arkader







Na Bíblia, mais precisamente em Gênesis, Deus ordena a Abraão que pegue sua família, e neste caso não são somente os parentes, mas todo o clã, e se encaminhe para uma nova terra, a terra de Canaã.

Deus não ordena que ele vá só, mas que leve a todos os seus.


Em Exodus, de novo, Deus ordena a Moisés que retorne ao Egito e salve o seu povo da escravidão. Mais uma vez, Deus não ordenou que ele salvasse somente a si ou a sua família, mas a todos do povo.


No mundo judaico o indivíduo é responsável pela coletividade e Deus ratifica essa característica.

As comunidades judaicas, desde a Idade Média até bem pouco tempo viviam em Shtetls ou eram obrigados a viver em guetos.

Independente da condição social, os membros destas comunidades sempre se preocuparam com os seus.

Empatia e alteridade são características do povo hebreu. Do nascimento à morte, passando pelo rito da maioridade religiosa - para os meninos - e casamento, o judeu nunca está sozinho. Ao nascer e realizar o pacto de Abraão com Deus, a comunidade está presente. Ao entrar na maioridade religiosa, a comunidade está presente. No casamento, mais uma vez lá está a comunidade. Na morte, dez é o numero mínimo obrigatório. Esta empatia e alteridade não se encontram somente na Bíblia ou nas tradições e costumes do povo judeu. Ela é real, é física e pode ser comprovada com toda a ajuda humanitária que governos israelenses enviam a países, não judaicos, que passaram por catástrofes. Bem como aqueles que necessitam de tecnologia para poder ter uma vida melhor, como é o caso de povoamentos na África, onde as pessoas precisam caminhar oito ou mais quilômetros para conseguir água. Sabemos que nem tudo é ruim, mas falemos somente daquilo que a meu ver é causador de transtornos para a humanidade nos dias atuais. Nem tudo são flores.

Desde a pré-história o ser humano se aglomera, vive em sociedade. Quer seja para se defender, obter alimentos ou para se proteger do frio. E foi ao redor do fogo que o ser humano começou a desenvolver tradições e costumes. Com seu clã ou grupo, o homem se movia para obter alimentação e proteção.

A sociedade pré-histórica era uma sociedade pautada na divisão sexual do trabalho, onde os homens caçavam e protegiam e as mulheres - desde os primórdios e sempre mais atarefadas - coletavam, cuidavam dos filhos e da preparação da alimentação.

. Esta sociedade era comunal, onde tudo era dividido e não havia a propriedade pessoal. A educação era difusa, onde os mais velhos ensinavam os mais jovens: meninos aprendiam com os homens e meninas com as mulheres.


Enfim, era uma sociedade desprovida de individualismos. Ao longo de suas andanças, a mulher, que era a responsável pela coleta, começou a observar o ciclo de crescimento de algumas plantas como o trigo.

A partir deste momento o “homem” passou a plantar. Com a Revolução Agrícola, o homem se sedentarizou mudando radicalmente o tipo de sociedade que existia.

Ao ser dominado pela agricultura, o homem além de precisar trabalhar mais passou a organizar o trabalho não mais por sexo, mas por “classes”.

Um belo dia, alguns membros mais “espertos” desta sociedade se afastaram do trabalho diretamente ligado à produção de alimentos, se associaram aos deuses e criaram uma sociedade onde “manda quem pode e obedece quem tem juízo”. Pronto!

Estava instituído o inicio de uma sociedade individualista, egoísta e dominada pela “elite”. Ao longo da História humana esta situação não se modificou. Na Antiguidade as sociedades se dividiam entre aqueles que trabalhavam, - os escravos e o povão -, e aqueles que não sujavam as mãos, - os nobres e cidadãos.

Na Idade Média o polvo criou novos braços, pois além dos nobres, o clero se tornou um estamento senhorial. Havia os nobres e os servos bem como os suseranos e vassalos. Essa péssima tradição de não trabalhar, da aristocracia, perdurou ao longo de toda a Idade Moderna com um agravante: os servos que antes trabalhavam para o senhor feudal foram substituídos por escravos, sequestrados de suas terras, para gerar riqueza para os senhores de engenho, os novos senhores feudais.

A Revolução Francesa veio para assegurar a todos o direito a liberdade, igualdade e fraternidade. Doce ilusão. Os haitianos, dentre outros, entenderam ao vivo e a cores que esse lema era só “pra inglês ver”. Os direitos do cidadão e do homem não eram para todos como aludiam os revolucionários. A Revolução Industrial piorou a situação. Pessoas trabalhavam muito e ganhavam pouco para sustentar suas famílias.

A burguesia, que “fez” a Revolução Francesa, tomou o lugar da aristocracia e subjugou o proletariado, de forma pior á qual a aristocracia fazia com ela.

Surge o socialismo com a sua luta de classes, mas que em um futuro próximo seria usado para diferenciar classes. O mundo piorava a cada nova revolução. O individualismo iluminista e liberal deu ao mundo um abismo enorme entre as classes. Não só econômico e financeiro, mas politico e social.

O ser humano se tornava, a cada dia, mais individualista. Burgueses procurando o lucro através da exploração do proletariado. Países industrializados ou em via de, dividindo e explorando as Américas, África e Ásia para conquistar novos mercados onde pudessem escoar seus manufaturados e onde pudessem obter mais matéria prima a preço de banana.

Guerras irromperam, A Primeira Grande Guerra Mundial foi um massacre que opôs o antigo e tradicional ao moderno e progressista. Fruto da Revolução Industrial, tecnologias surgiram e novos mecanismos de matar também. A ganância, o individualismo e o egocentrismo fizeram surgir movimentos nacionalistas cruéis como o fascismo, o nazismo, o salazarismo, dentre outros.

A culpa da modernidade ficou bastante evidente na Segunda Guerra Mundial onde a barbárie tomou conta da mais culta sociedade europeia: a alemã.

Milhões foram assassinados pela burocracia e tecnologia pós-iluminista da máquina de morte nazista. Com a Revolução Industrial o status quo não mudou, piorou. Muitos trabalham e poucos comandam. A riqueza mundial está absurdamente mal dividida. Poucos têm muito e muitos têm pouco ou nada.

Guerras, fome, doenças foram alguns “presentes” da modernidade.

A Revolução Industrial nos deu também tecnologia. Tecnologia essa que se transformou em internet. Com a internet nos tornamos globalizados. Informações do outro lado do mundo, ou como queiram os terraplanistas, do outro canto do mundo, nos chegam imediatamente após acontecerem ou, ainda, enquanto estão acontecendo.


Ainda não sabemos o que causou a nova “febre espanhola”, o covid-19.

Mas ela veio para mostrar ao ser humano, individualista e egoísta, que não adianta construir e produzir armas de destruição em massa, pois um ser invisível quase destruiu o planeta.

Até o momento, enquanto este texto está saindo do forno, mais de cinquenta milhões de pessoas morreram no mundo e economias foram abaladas em seus alicerces.

Pelo que podemos notar, após a primeira onda de ataque deste exercito invisível, em alguns países como o Brasil esta onda perdura desde que a pandemia teve inicio, os governos reabriram a economia e o ser humano ao invés de aprender a ser solidário se mostrou mais egoísta do que nunca.

No Brasil com viés totalitário, onde o governo pouco ou nada fez para combater o inimigo, o povo “saiu do armário”.

Milhares de pessoas lotam praias, bares e restaurantes. Ruas inteiras lotadas para as compras de Natal. Mais de cento e setenta mil mortes e quase seis milhões de infectados não foram o suficiente para mudar o comportamento da sociedade.

A morte se tornou banal. Fora os mais de quatorze milhões de desempregados e os tantos milhões na informalidade.

O individualismo se mantem.

As máscaras caíram e/ou são usadas debaixo do queixo.

Cada vez mais a tecnologia, a internet, torna o humano um ser individualista cujos relacionamentos são líquidos, parafraseando o sociólogo Zigmunt Bauman.


No entanto a internet se tornou um alento para aqueles que pensam no próximo. Aqueles que se protegem e protegem os seus semelhantes ao seguirem as recomendações médicas de isolamento, uso de máscaras e álcool, restrição a aglomerações, etc.

Essas pessoas, graças à internet, puderam se aproximar e criar relações, mesmo que virtuais. Relações que por enquanto são cultivadas através do telefone, vídeo, Whatsapp, zoom, Skype, etc.

Essas pessoas só aguardam o “milagre” da vacina para poderem se encontrar pessoalmente e mudarem ou retornarem às suas vidas.

Enquanto isso o mundo fica de “dedos cruzados” e continua sendo explorado e visto pelas lentes da internet até que o “milagre” possa se tornar realidade.

Pergunta que não quer calar: será que um dia voltaremos a ter uma sociedade aos moldes da pré-histórica? Pelo menos no que tange a ser mais coletiva, com reciprocidade e menos individualismos? Acho que se o ser humano continuar construindo armas de destruição em massa e agindo com seus semelhantes e com a natureza da forma atual, com certeza voltaremos á pré-história.


Voltando ao inicio do texto, o povo judeu sempre esteve envolvido nos melhores e piores eventos da humanidade. Israel não é um país superior a outros, tampouco é pior do que outros.

Mesmo sendo um país pequeno, cercado por – alguns - inimigos, sendo constantemente recriminado por boa parte do mundo, tendo seu povo sofrido perseguições de todos os tipos por séculos, quase sendo exterminado, Israel e o povo judeu sempre estão abertos para ajudar, sempre estão focados para preservar a vida.

Quem sabe a Bíblia não esteja certa em relação ao judeu ser parte do povo escolhido. Será que são a ultima esperança da Terra? Existe algo no judaísmo que deixa um fio de esperança no ar.


* Daniel Arkader é historiador formado pela Universidade Estácio de Sá, economista formado pela Faculdade Cândido Mendes e gestor de Projetos e Equipes formado pela Instituição de Ensino FGV-Fundação Getúlio Vargas. Pesquisador convidado do Núcleo Interdisciplinar de Estudos Judaicos da UFRJ-Universidade Federal do Rio de Janeiro – Rio de Janeiro. E-mail:

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