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Mais um Artista Judeu no Brasil : Lasar Segall

por Mendy Tal



Há artistas cuja vida é tão marcante quanto sua arte, e o pintor judeu Lasar Segall (1891-1957) é certamente um deles.

Segall, cuja sensibilidade permanecia a de um expressionista do norte da Europa mesmo no ensolarado Brasil, nasceu em uma família judia ortodoxa, um dos oito filhos de um escriba da Torá, em Vilna, na Lituânia, então parte do Império Russo.

Aos 14 anos - e aparentemente com a aprovação de seus pais - ele saiu de casa para estudar arte em Berlim. Este foi, infelizmente, um período em que a Alemanha assomava para muitos judeus russos como um refúgio contra as opressões antissemitas do regime czarista.

Viajar do gueto judeu de Vilnius para a cosmopolita Berlim era, é claro, não apenas entrar em um novo mundo social, mas realizar o que representou um salto no tempo histórico - um salto para a modernidade.

Mesmo assim, o jovem Lasar Segall parece ter negociado essa mudança radical com notável facilidade. Quatro anos após sua chegada à capital alemã, ele expôs seu trabalho com o grupo da Secessão de Berlim.

Em 1910, quando ainda não tinha 20 anos, mudou-se para a Academia Imperial de Belas Artes de Dresden, onde se matriculou como professor estudante. Também naquele ano, a Gurlitt Gallery em Dresden deu a Segall sua primeira exposição individual.


O trabalho de Segall era derivado do impressionismo, expressionismo e modernismo. Seus temas mais significativos foram representações de sofrimento humano, guerra, perseguição e prostituição.

Depois de ser aceito no movimento expressionista alemão no final de 1912, ele viajou pela primeira vez ao Brasil, onde tinha conexões familiares, e suas duas exposições em Campinas e São Paulo estiveram entre as primeiras apresentações de arte moderna no Brasil.

Depois de oito meses, ele voltou para Dresden. Em 1919, Segall participou da fundação do "Dresdner Sezession, Grupe 1919" e nos quatro anos seguintes participou do movimento expressionista alemão, apresentando exposições em Haia, Frankfurt e Leipzig e publicando dois álbuns: Bubu (1921) e Remembrance from Vilna (1922).


O artista teve sorte de estar na Alemanha, ao invés da Lituânia, quando a Grande Guerra veio em 1914.

Embora ele tenha sido expulso da Academia de Dresden como um cidadão russo quando a Rússia entrou na guerra, e internado por dois anos na cidade vizinha de Meissen, ele foi capaz de continuar pintando sem interrupção e - ainda mais importante - ele não teve que experimentar a carnificina da própria guerra. Quando foi libertado da prisão enquanto a guerra ainda ocorria, Segall conseguiu até mesmo fazer uma última visita a seus pais em Vilna, que logo foi destruída.

Para Segall, o expressionismo provou ser uma forma de chegar a um acordo com sua experiência como um judeu emancipado.

Como costumava acontecer com artistas e escritores judeus de sua geração que se sentiam exilados de sua educação religiosa, mas mantinham um senso de solidariedade com as tradições que os haviam nutrido, Segall encontrou no expressionismo o meio de acomodar seus sentimentos de alienação e sua consciência social problemática.

Sua primeira experiência aqui, em 1912, deu a Segall a oportunidade de ter uma forte ideia da arte sul-americana e, por sua vez, fez com que Segall voltasse ao Brasil.

Embora Segall ainda fosse um cidadão russo, ele se mudou de volta para o Brasil em 1923. Após o retorno de Segall a São Paulo, ele obteve a cidadania brasileira junto com sua primeira esposa, Margarete.

Enquanto esteve no Brasil, suas pinturas foram fortemente influenciadas pelo Distrito da Luz Vermelha no Rio de Janeiro.

Muitos artistas brasileiros influenciaram Segall e fortaleceram sua forma cubista.

Ele se aclimatou em seu novo país e pintou temas que característicos do Brasil, mulatos, favelas, prostitutas e plantações.

Devido à natureza severa e extrema do retrato de prostitutas de Segall e sua descrição do sofrimento humano, sua arte tornou-se controversa. Essa controvérsia específica em sua obra de arte fez com que ele e outros artistas conhecidos organizassem um evento pró-modernista conhecido como Semana de Arte Moderna.

Além das pinturas, Segall desenvolveu muitos trabalhos em gravuras com as mais variadas técnicas como gravura em metal e xilografia.


Segall parecia enxergar a essência do povo brasileiro quando mostra que, apesar de sofrido, o povo brasileiro não deixa de festejar a vida, como na gravura “Baile de negros”, feita em xilografia.


A representação do povo brasileiro é constante na obra do artista, e vai ser junto de Tarsila do Amaral, Victor Brecheret, Anita Malfatti e Ismael Nery que Segall irá se tornar um dos ícones do modernismo no Brasil.


A perspectiva judaica está presente em algumas obras de Segall. Em várias pinturas, ele incluiu letras hebraicas e assinou algumas em hebraico.

Outras pinturas foram focadas diretamente em temas judaicos: Rabino com alunos (1931),"Rolo da Torá" (1922/1933), Pogrom (1937), Navio de Emigrantes (1939/1941), Campo de Concentração, Êxodo (1947), e outras que fizeram parte da coleção Visões de Guerra (1940/1943).

O artista morreu em São Paulo em 1957, de problemas cardíacos. Dez anos depois, o Museu Lasar Segall foi inaugurado em sua antiga residência e ateliê de arte.

Em 2010, as obras de Segall foram trazidas para a Lituânia e exibidas temporariamente em Vilna. A exposição apresentou litografia do livro do artista Memories About Vilnius.

Além do Brasil, Lasar Segall teve sua arte expostas em grandes cidades da Europa e dos Estados Unidos e até mesmo em Israel.

Mendy Tal

Cientista Político e Ativista Comunitário

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