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Da Era pós-modernidade à Era pós-pandemia

por Maria Luiza Tucci Carneiro,





Hoje, em pleno século XXI, vivemos um novo período de transformações delineado principalmente, por dois importantes fenômenos sócio-políticos que questionam o papel do Estado na preservação da vida: a proliferação do Covid-19, símbolo da fragilidade do ser humano, e o assassinato do negro americano George Floyd, símbolo do racismo plurifacetado que sufoca o mundo.


As reflexões dos grandes pensadores da Pós-modernidade, Zygmunt Bauman, Anthony Giddens e Terry Eagleton, certamente nos ajudam a refletir sobre este novo mal-estar que aflige a humanidade, provocando desconforto e estranhamento.

Ajudam, mas jamais poderíamos imaginar que alguém questionaria que a terra não é redonda.

Felizmente, a esperança na justiça, ciência, igualdade e solidariedade continua positiva.

Possivelmente, em breve, ouviremos falar da Era pós-pandemia ou da Era pós-verdade, como querem alguns.

Creio que a geração que assistiu aos eventos-símbolo que designam a condição sociocultural e estética da pós-modernidade -- dentre os quais cito a queda do Muro de Berlim em 1989, o colapso da União Soviética e a crise das ideologias nas sociedades ocidentais do final do século XX -- entende que estamos em transição, inaugurando uma nova Era.

Temos identificado, nos últimos anos, a falta de uma liderança e harmonia mundial com capacidade de avaliar situações de risco, que comprometem vidas e os direitos humanos e, desde janeiro de 2020, identificamos novos pontos de ruptura: a pandemia, os movimentos antirracistas que ocupam as ruas das principais cidades americanas, europeias e brasileiras.

Trata-se portanto, de uma mudança de paradigmas, que exige esforços coletivos com o objetivo emergencial de propor ações preventivas, profilaxias e recuperação da humanidade pós-pandemia.

Como interpretar o fenômeno “Covid-19” que isolou os indivíduos em suas residências, iniciando um novo projeto reflexivo do eu e do nós?

Como interpretar os slogans de protesto (re)editados por milhares de jovens portando máscaras antivírus, que sem precisar de intermediários, retomaram o direito de ocupar as ruas e de protestar pelas vidas negras?

Carregando cartazes improvisados em papelão, colocaram na ordem do dia, simultaneamente, a política da vida e da tolerância.

Sinais indicativos de que a liberdade de expressão garantida pelas instituições democráticas, sobrevive apesar das ameaças dos panfletários de extrema-direita que interferem nas relações humanas, manipulando dados e negando-se a enterrar os mortos.

Hoje, em plena Era da pandemia, considero que o fenômeno da globalização é revolucionário por permitir a ação imediata dos grupos que clamam pela política da vida e da tolerância.

Potencializados pelas redes sociais, os movimentos pró-vida e antirracismo replicam suas vozes mundo afora, anunciando “para quem os joelhos dobram e sufocam”. Aproveitando-se do vácuo aberto pelas incertezas e injustiças da justiça, os jovens protestam, sem pedir autorização ou carteirinha do partido político.

Os panelaços ganham novos significados, replicando o som do metal que, por sua vez, reforça a identidade do manifesto coletivo pró-vida, sem distinção de cor, etnia, gênero e/ou de classe.

Para as futuras gerações, possivelmente, essa nova arte do protesto estará disponível nos arquivos digitais e nas instalações visuais e sonoras idealizadas pelas fundações, museus e associações culturais.

A fotografia digital e o vídeo, por sua vez, cumprem com sua função de documentar a violência e o protesto, privilegiando o fotojornalismo que hoje ocupa uma posição única na história.

Ainda está para ser avaliado o impacto das novas tecnologias digitais na arte do protesto e, mais especificamente, na democracia brasileira.

Lembrando sempre que, a ausência de regras na internet, abre espaço para informações enganosas e a proliferação dos discursos de ódio, tendendo a piorar e confundir o cenário que demanda ajuda humanitária.

Considerando o atual momento de extrema fragilidade vivenciado pela humanidade e, mais especificamente, pelo povo brasileiro, o desafio maior reside na capacidade do Estado de assegurar o pleno respeito aos direitos civis e políticos, até então incompatíveis com as necessidades básicas dos seres humanos.

Desta vez, temos diante de nós um “muro biológico”, que para ser demolido depende do Estado reconhecer a capacidade que a ciência tem de salvar vidas, pois vidas importam antes de tudo”.

*Maria Luiza Tucci Carneiro, Historiadora, Professora Livre Docente e Coordenadora do LEER-Laboratório de Estudos sobre Etnicidade, Racismo e Discriminação, do Departamento de História/FFLCH-Universidade de São Paulo.

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