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A Percepção diante da Pandemia

A quarentena imposta pela pandemia da Covid-19 mexeu com a rotina das pessoas, agigantou abismos sociais e nos emparedou diante de nossa condição transitória.

O bombardeio de notícias, que tanto esclarece sobre formas de proteção, chega a transtornar.

Por isso a lucidez de quem tem a sensibilidade como matéria-prima ajuda as pessoas a elaborar melhor o que acontece hoje no mundo e a se identificar com seus relatos. Quatro escritores, com livros editados pela Cepe,- Companhia Editora de Perbambuco contaram como a vida mudou.

Levamos a você o depoimento de um deles Luiz Krausz.


“Creio que, ao contrário do que acontece em muitos países do Hemisfério Norte, a cultura e a sociedade brasileiras não possuem uma tendência pronunciada à introspecção e à solidão, algo que é profundamente enraizado nos universos anglo-saxão e germânico, porém um tanto estranho aos universos latino,africano e indígena.

Esta súbita distância que se estabelece entre as pessoas é um elemento novo e inesperado na vida das nossas cidades, onde todos têm o costume de se tocar, de se aproximar, de se abraçar e de se beijar.

De repente, todos se vêem confrontados com suas solidões.


Junto com o vírus, o outono também chegou a S. Paulo de maneira bastante súbita, com temperaturas relativamente baixas e, além disto, por causa da cessação de quase todas as atividades, e consequentemente do trânsito de veículos, baixou sobre a cidade um grande silêncio, enquanto o ar está puro e cristalino como nunca vi.

Temos dias de céu muito azul e é como se o ar que entra pelas janelas tivesse sido trazido de algum outro lugar, muito distante de São Paulo.


Tudo isto me dá a sensação de ter sido transportado, juntamente com tudo o que faz parte da minha vida cotidiana doméstica, para longe daqui, no tempo e no espaço. 


Minha escrita tem sido, desde sempre, marcada pela memória de outros tempos e de outros lugares: os pontos de convergência entre situações geográfica ou cronologicamente distanciadas nela funcionam como pontes para outras paragens, outras narrativas, outros cenários.

Então, é como se, no mundo lá fora, estivesse acontecendo o que se passa em minha atividade literária: São Paulo, a minha rua, o meu bairro, tornaram-se um daqueles lugares que vamos buscar em nossas viagens ou em nossa nostalgia.

A cidade subitamente está impregnada de sensações e de atmosferas estrangeiras, ou pertencentes a outro tempo.


De fato, é como se estivéssemos vivendo uma obra de ficção.


Bem, isso tudo diz respeito, por assim dizer, ao aspecto lírico e estritamente subjetivo desses dias terríveis, que só emerge na medida em que deixamos de pensar, por algum tempo, no que realmente está acontecendo: uma grande epidemia cujas vítimas, lamentavelmente, serão e já são, principalmente, como sempre ocorre no Brasil, os desfavorecidos e os excluídos, que não têm como tomar as medidas preventivas recomendadas pelos especialistas em saúde.


De maneira que, por trás desta aparente calmaria paira também, silenciosamente, ou não tão silenciosamente, a ameaça de uma catástrofe que é muito real, a ameaça de irrupções de violência e de ruptura do nosso tecido social, já tão esgarçado e frágil, a ameaça de uma grande tragédia humana coletiva, para não falar do desmoronamento da economia, com todas suas inevitáveis e desastrosas consequências.

    

De tal maneira, esses dias têm sido marcados por uma grande contradição que, estando sempre presente em minha vida, parece acirrar-se agora: do ponto de vista individual, a curiosidade e mesmo o deleite ante as condições meteorológicas, climáticas e atmosféricas tão favoráveis aos desdobramentos de uma subjetividade livre e, do ponto de vista coletivo, uma enorme inquietação ante o que está por vir, que é acompanhada de uma sensação de total impotência ante a catástrofe social que se anuncia.


É como se as contradições da vida brasileira e de seu enorme abismo social tivessem chegado a um paroxismo, cujas consequências ainda não se deixam antever com clareza.


Assim, esses dias me fazem lembrar a obra literária de Aharon Appelfeld, escritor israelense de origem austríaca, autor que aprecio muito e de quem traduzi duas obras ao português, cujas narrativas são ambientadas às vésperas da catástrofe da 2a. Guerra Mundial, e cujos personagens, absortos pela cultura anacrônica do romantismo tardio, mergulham nos idílios e nos pesadelos de suas subjetividades particulares, enquanto permanecem cegos à tempestade que se anuncia no horizonte.”   

Fonte : Site CEPE

 

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