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A expulsão dos Judeus dos países Árabes e do Irã – uma história não contada

por Andrea Mifano

Aproximadamente um milhão de judeus viviam nos países árabes e no Irã até a década de 60 Entretanto estima-se que atualmente restam só cerca de quatro mil e trezentos nesta mesma região.

Esta expulsão e êxodo em massa do Povo Hebreu faz parte da História moderna do mundo, mas não costuma ser ensinada nas escolas ou lembrada em contextualizações sobre a região.

Por mais de 2.500 anos os judeus viveram continuamente no Norte da África, Oriente Médio e a região do Golfo. Inclusive já estavam lá pelo menos 1.000 anos antes do advento do Islã.

Apesar de muitas vezes serem discriminados em relação aos seus conterrâneos, o Povo Judeu contribuiu significativamente com estas regiões e seus respectivos países. Eram cidadãos leais as suas pátrias, mesmo que em certos países tinham status inferior a outros compatriotas que faziam parte da religião oficial.

Entretanto nos 20 anos que seguiram à Guerra Árabe Israelense de 1948, mais de 850.000 judeus se viram forçados a sair ou foram expulsos dos seus lares no Egito, Líbano, Síria, Marrocos, Iraque, Iêmen, entre outros países árabes. Outra migração em massa aconteceu no Irã, entre 1979 e 80, devido a revolução pela qual o país passou, adicionando em torno de mais 70.000 judeus a esta conta.

Existe farta evidência que esta ação contra os judeus foi orquestrada por todos os países árabes envolvidos. Isto é provado por: (a) a elaboração de uma carta pelo Comitê Político da Liga Árabe que recomendou a estratégia coordenada de medidas repressivas contra os judeus; (b) leis extremamente similares e decretos discriminatórios publicados por diversos governos árabes, que violavam direitos fundamentais e liberdades dos judeus residentes em países árabes; (c) pronunciamentos feitos por delegados de países árabes na ONU – Organização das Nações Unidas, durante o debate sobre a "Resolução da Partilha da Palestina", representando um padrão de ameaças graves feitas contra os judeus em seus países; e (d) relatos de jornais daquela época.

Em 1947 o Comitê Político da Liga Árabe preparou uma lei para regulamentar o status legal dos ainda residentes judeus em todos os seus países membros. Este modelo de lei da Liga Árabe dispunha que "...todos os judeus – com exceção dos cidadãos de países não árabes – deveriam ser considerados membros do estado menor judaico da Palestina; que suas contas fossem congeladas e usadas para financiar a resistência às ambições sionistas na Palestina; judeus que se acreditasse serem Sionistas ativos deveriam ser detidos como prisioneiros políticos e seus bens confiscados; somente judeus que aceitassem servir nos exércitos árabes ou se colocassem à disposição deste exércitos seriam considerados Árabes...".

Apesar disto, diplomatas árabes na ONU procuraram atribuir a culpa em relação a qualquer perigo que os judeus corriam nas "massas" árabes, fazendo discursos neste sentido. Como se ignorassem o conluio existente para encorajar discriminações sancionadas por seus próprios estados contra este povo.

Em um pronunciamento ao Comitê Político da Assembleia Geral da ONU, na manhã de 24 de novembro de 1947, somente cinco dias antes do órgão votar sobre o plano de Partilha da Palestina, Heykal Pasha, um delegado egípcio, fez o seguinte pronunciamento: "As Nações Unidas...não deveriam perder de vista o fato que a solução proposta pode colocar em perigo um milhão de judeus vivendo em países muçulmanos...Se as Nações Unidas decidirem pela partilha da Palestina ela poderá ser responsável por desordens muito graves e pelo massacre de um grande número de Judeus"[1].

Outro exemplo é de 20 de novembro de 1947, quando o Ministro das Relações Exteriores do Iraque, Fadil Jamali, na 126ª Reunião Plenária da Assembleia Geral da ONU afirmou: "Não somente é de se esperar a insurreição dos árabes na Palestina, mas as massas no mundo árabe não poderão ser contidas. A relação árabe judaica no mundo árabe se deteriorará imensamente"[2].

Em 1948 o jornal The New York Times publicou artigo com a seguinte manchete: "Judeus em Grave Perigo em todas as Terras Muçulmanas: Novecentos Mil na África e na Ásia enfrentam a ira dos seus inimigos." Isto foi reflexo da observação que as massas estavam sendo insufladas à guerra santa devido à Partilha da Palestina (votada na ONU).

Eu sou uma descendente desta História. Meus pais e avós tiveram que sair do Egito, deixando tudo o que tinham para trás, tendo que recomeçar a vida em um país que não conheciam, com uma língua que não falavam, tendo sido espoliados de todos os seus bens, que ficaram para trás, no Cairo, para nunca mais serem recuperados. Mas, ao mesmo tempo, isto fez com que novas famílias de brasileiros, que amam esta pátria, fossem criadas aqui e sejam muito agradecidos por terem sido adotados por esta mãe gentil.

Apesar disto tudo, nos últimos meses parece haver um horizonte de esperança nesta relação tão turbulenta entre judeus e países árabes. Com as notícias dos acordos de paz entre os Emirados Árabes Unidos, o Bahrein e o Sudão com Israel, o Estado Judeu, surge uma nova era de reconciliação entre muçulmanos e judeus no ar.

Que venham estes novos tempos que tragam real paz entre os países árabes e Israel. Mas também que não seja esquecida a necessidade de preservar a História sobre o que realmente aconteceu e que os cidadãos dos países envolvidos aprendam o que houve em suas pátrias, em um passado não tão distante. Para evitarmos que a história se repita é necessário sempre aprendermos com ela..

Andrea Mifano, member of the World Jewish Congress' Jewish Diplomatic Corps

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